Quase ilusão, não fosse vício...

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Ele nem era tão bonito, olhando detalhadamente, era bem feio, juntava traços mal desenhados e fora de foco, mas ainda assim ela o queria lindo. Sua inteligência era acima da média, mas ela o achava o mais genial dos homens e tudo o que falava, por mais banal que fosse, para ela era quase um mantra. Ele era sensível? Talvez... ou ela pensava que fosse, e quando falava ela tornava suas palavras poesia. Na cama ele parecia o mais experiente dos homens e a cada movimento ela se deixava surpreender como se vivesse uma nova descoberta; na verdade, pensando bem, ele nem era assim tão eficiente se ela não fosse ousada e criativa.  

No seu delírio ela jurava que todas as mulheres do mundo o desejavam. Quando estava com ele todas a ameaçavam, e ela perseguia os olhares dele e delas e invariavelmente achava que se encontravam na sua ausência. Já sentiram a sensação de que a conquista está sendo cobiçada? Pois é, ela era muito grata por aquela companhia, como se fosse sua única oportunidade? Tão agradecida que preferia esquecer suas reais necessidades. Para ela, todas as mulheres pareciam as filhas da madrasta e ela se sentia perseguida, como se quisessem roubar algo que ela não tinha certeza possuir.

Aos poucos foi se isolando, se esquecendo da vida lá fora, até o dia em que olhando o espelho não se reconheceu. Até o dia que se deu conta que silenciou os amigos e quase apagou sua história. O isolamento é uma grande armadilha...

Nesse dia durante o jantar o percebeu inútil, alheio, sem luz e estremeceu.  Suas palavras ela quase não as ouvia, sua respiração lhe roubava o ar. Atônita, ela sentiu as lágrimas desfazendo a maquiagem; sentiu que se transformava num borrão. Ele nem percebeu, seguiu falando de si mesmo, de seus planos e sem olhar para atrás, partiu.

O encantamento se desfez e num passe de mágica a carruagem virou abóbora e o sapatinho de cristal se esfacelou. Quem viveu essa sensação entende que alguns envolvimentos estão a um passo da insanidade, que relações de mão única estão fadadas ao precipício. Que loucura! Depois que tudo acaba, as lembranças viram diversão, mas até lá... um bom vinho e uma boa conversa ajudam.

- “Amiga, comigo aconteceu do mesmo jeito”.  Foi como ouvir palavras mágicas, ela não sentiu mais só.  Nunca estamos sós, nem mesmo na trilha dos desatinos. E isso é uma percepção feminina que precisa cada vez mais ganhar o mundo. O conhecimento, as experiências e emoções fazem parte do aprendizado. Cada encontro é uma nova criação. Que seja! São vivência únicas que compartilhadas as vezes se complementam, se enriquecem ou, simplesmente, ajudam a seguir em frente.  

Olhando as taças de vinho, as duas suspiraram o alívio de compartilhar dúvidas, medos e sensações que, se antes pareciam inusitadas, depois de um bom papo se revelam corriqueiras. E compreenderam um pouco sobre o perigo de criar o outro.  Compreenderam um pouco sobre o risco de colocar no outro as próprias ausências e fazer a conexão entre vulnerabilidades. Será que sempre precisamos trazer o outro para o nosso lugar de referência?  Ou será exatamente na separação entre eu e o outro, sem meias palavras, que podemos vivenciar um tempo de emoções e verdades??