Identidade

Quem é você? O que você faz?  Eu posso falar meu nome, minha profissão, meu estado civil, minha idade. Posso falar que tenho filhos, netas; talvez começar dizendo onde nasci. Enfim, eu posso falar um monte de coisas para não falar de mim.

De repente me dou conta dos muitos véus que me escondem. Véus? Ou personagens que habitam em mim? Difícil saber quem eu sou num mundo totalmente adjetivado, no mundo de rótulos e carimbos. Intuo que eu não sou quem o mundo pensa que eu sou.  Na realidade a vida é uma busca de quem eu sou.

Quando criança me diziam: seja uma boa menina! Mais tarde me recomendaram: estude, mas não esqueça de casar. E o tempo deu uma cambalhota, que eu só percebi quando escutei: seja uma boa mãe e, é claro, uma boa esposa. E se preciso for, esqueça sua profissão, a família deve ser sua prioridade. Ah, e lembre de ser boa amante, senão seu marido “vai buscar na rua, o que não encontra em casa”. Argh!!!

Até o espelho consegue no silêncio me pressionar. E olha que eu o evito, mas quando dou uma espiada de esguelha escuto: huuum!!! Precisa perder uns quilinhos...

Está difícil resistir. Saio do escritório, passo no supermercado, pego os meninos na escola, coloco a roupa pra lavar, improviso o jantar e enquanto tiro a mesa sonhando com um tempo pra mim, sinto o arrepio da mão nas minhas coxas e na sequência um sussurro: “Te quero”.  Não sei se fico feliz, se desmaio ou se sonho com uma bicicleta... O dia não termina...

Quem sou eu?  Resposta difícil essa... Talvez eu seja o que esperam de mim. Ou o que escolheram por mim.  Com certeza eu sou o improvável, o não visível, o que nunca está aqui.

Coleciono personagens em busca de uma história. Todos gostam de uma boa história. O que sou? Uma coletânea de promessas. O que faço?  Tudo e nada, pois ainda não sei de mim.

E assim estremeço quando escuto uma voz decidida dizer meu nome, meu estado civil, profissão, idade.  São vozes que acreditam saber de mim...

Como ainda não sei, silencio...e sigo tentando o encontro comigo entre lágrimas no cinema; na música que vibra no meu corpo, que me movimenta e quase alcança um lugar anônimo em mim; no olhar fugaz que me alcança na rua; na minha voz embargada ao sabor da poesia; na carícia que toca o lugar do arrepio. E caminho... caminho, caminho a procura de mim...

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