O desapego de criar um filho no exterior

Quando viemos para o Canadá, eu e meu marido, sabíamos que enfrentaríamos uma mudança de vida gigantesca. Esse, aliás, foi um dos grandes motivos que nos fez sair do Brasil: ter uma mudança de vida.  

Pouco tempo depois da nossa chegada aqui, descobrimos que estávamos “grávidos” e mais uma vez alegria e medo tomavam conta de nós.

Nossa filha nasceu em 2016, e conforme ela está crescendo, temos percebido que criar um filho longe do nosso país de origem é um dos maiores desapegos de nossa vida. Criar um filho no exterior é literalmente viver no meio, entre a cultura de lá, e a cultura de cá.

Pense em todos os personagens que fizeram parte da sua infância, em todas as músicas que você aprendeu quando pequeno, em todas as brincadeiras que você brincava com primos. Pelo menos 90% disso tudo que você lembrou, não fará o menor sentido para o seu filho. As músicas são outras, as brincadeiras são outras, os personagens são outros. A convivência com primos também não será diária, e visitar a casa dos avós muito menos.

Não somente as referências são outras, mas também a forma como as crianças são vistas é bem diferente. Aqui em Toronto, por exemplo, com 4 anos as crianças já podem ir para a escola pública, e é a partir desta idade que é esperado que seu filho saiba comer sozinho, se vestir sozinho, se limpar sozinho e até pegar o ônibus da escola sozinho caso seja preciso. Uma amiga uma vez me disse que, com 4 anos, a exigência de independência para o filho dela era tanta que parecia que ele já estava indo para a universidade, quando na verdade ele estava apenas começando o Junior Kindergarten.

Somado a isso, viemos morar em um país que possui inverno em 7 meses do ano, sendo que em 4 meses pelo menos vivemos sob temperaturas negativas e neve. Mas isso não é problema algum para as crianças que vivem aqui: o ministério da educação exige que as crianças brinquem em atividades externas pelo menos 2 horas por dia (1 hora de manhã e 1 hora a tarde), em temperaturas de até -20ºC (sim, você leu certo, 20 graus negativos). Isso quer dizer que, nos dias em que provavelmente eu não gostaria nem de colocar o nariz pra fora de casa, minha filha está brincando no parque da escola, correndo para lá e para cá em temperaturas congelantes.

Toronto é uma cidade super multicultural, e dizem que somente aqui são faladas mais de 200 línguas, tamanha diversidade de imigrantes. Toda essa diversidade é refletida no nosso dia a dia, e opções de restaurantes e alimentos não faltam. Comida indiana, chinesa, japonesa, tailandesa, opções não faltam. E é aí que entra mais um desapego: alimentação. Dentro de casa costumamos fazer tudo o que tínhamos no Brasil, e sempre tem o bom arroz e feijão. Mas o acesso a outros alimentos é muito grande, e esse será mais um desapego cultural que minha filha terá.  

Pensar em tudo isso me faz ficar um pouco assustada: será que no futuro eu serei referência de algum tipo de cultura para minha filha? Será que ela irá se interessar por algo do meu país de origem? Como será a nossa relação quando ela estiver 100% inserida na cultura canadense? Será que para ela eu vou ser uma eterna imigrante?

As perguntas são muitas, e nem sei se terei respostas para tudo isso. Mas uma coisa é certa: criar um filho no exterior é aprender muito mais do que ensinar, e esse é o primeiro desapego que devemos enfrentar. Saber que nossos filhos serão os nativos que nos ensinarão algo sobre o país para o resto de nossas vidas, faz parte da escolha de criar filhos fora do Brasil.  

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Danielle Vidal - @vidalnorte

Brasileira, apaixonada por viagens e lugares, mestre em planejamento e doutora em nada sair conforme o planejado. Criadora do blog VidalNorte, onde compartilha experiências sobre a vida de mãe e expatriada no Canadá.